Você caminha pela rua de São Paulo. Pode estar indo ou voltando do trabalho, da faculdade ou da feira. Ao longo do trajeto, você fica levemente indisposto e procura algum lugar para sentar e descansar um pouco antes de voltar ao seu rumo. Você espera encontrar um banco em algum espaço público, mas fica frustrado por não achar nenhum por perto. Os únicos lugares em que você pode sentar são as cadeiras dos bares, padarias e restaurantes ao longo da rua. O problema é que você só pode sentar se for consumir alguma coisa. Cansado, mas sem dinheiro (ou sem disposição para gastar seu suado dinheiro) você segue seu caminho ainda assim, sem a tão necessária pausa para reestabelecer as energias.

Por que esse tipo de situação acontece? Ela é bastante comum e você provavelmente já passou por algo semelhante. Os parques e áreas públicas em São Paulo são concentrados nos bairros mais ricos. Mesmo simples bancos nas calçadas são coisa rara em grande parte da cidade. Por que será?

Um dos argumentos mais bizarros é o de que áreas de descanso servem de abrigo para moradores de rua, o que desagrada às vizinhanças mais “higiênicas”. Você pode reparar: antigamente era comum encontrar bancos com encosto. Hoje em dia, eles não apenas perderam o apoio para as costas como foram substituídos por outros com ondulações no assento. Tudo isso para impedir que as pessoas deitem neles.

Já ouvi várias histórias esdrúxulas de senhoras indignadas que se reuniram para arrancar os bancos próximos às suas casas. Algumas pessoas chegam ao ponto de despejar óleo ou substâncias ainda mais desagradáveis (fezes, algumas vezes) apenas para que ninguém fique por ali. Bom, mas o que significa tudo isso? Será que estamos condenados a viver em espaços cada vez mais de passagem? Será mesmo que a cidade é só o meio do caminho entre a nossa casa e o nosso trabalho ou escola?

No começo da urbanização brasileira, ainda antes da industrialização, as maiores e mais bem estruturadas cidades do nosso país contavam com um equipamento público muito comum na Europa daquela época: os passeios públicos. Áreas que eram realmente o que nome sugeria, ou seja, espaços em que as pessoas iam para passear. Agora, veja você: desde aquela época, as cidades compartimentavam áreas específicas para as pessoas irem “passear”. O restante dos caminhos da cidade (curiosamente, muitos lugares chamam as calçadas de “passeio”) eram meros espaços de trânsito.

De lá pra cá, muitas coisas mudaram, mas muito do espírito “compartimentista” continua firme e forte. Isso só se reforça quando observamos que os empreendimentos particulares acabaram por tomar quase todo o território da cidade (olhem para o caso do Parque Augusta, por exemplo). Como uma cidade em que quase todos os metros quadrados são propriedade de alguém pode admitir que pessoas simplesmente parem para sentar um pouco, tomar alguma coisa ou simplesmente ficar abraçado com outra pessoa? Afinal de contas, a imensa maioria dos locais pelos quais passamos não é um “onde” e sim um “algo” que pertence a alguém. A questão dos moradores de rua que citei antes também tem seu peso nesse pensamento.

Vistos como dejeto, milhares de pessoas simplesmente não tem um lugar para onde voltar no final do dia. Imagine o quão desesperador deve ser isso! Ao invés de enxergá-los como sintoma de um mal muito maior e mais profundo da nossa sociedade, a visão estreita de muita gente os encara como doença. Num anseio imediatista, julga que expelí-los para locais cada vez mais distantes e isolados é a solução para resolver o problema. Não impressiona que essas sejam as mesmas pessoas que pensem que “bandido bom é bandido morto”, mas essa é outra discussão.

No entanto, nem tudo é desgraça. Uma iniciativa muito bacana que vem se espalhando pela cidade são os parklets, espaços de convivência e descanso mantidos pelos estabelecimentos que ocupam lugares antes ocupados por vagas de estacionamento e que não cobram nada de quem der uma sentadinha por lá. Ainda que não resolva o problema, já que ainda atendem áreas elitizadas de São Paulo, essa ideia é positiva e vai ao encontro de um conceito muito interessante que vem sendo cada vez mais usado para a concessão de alvarás na cidade: a contrapartida. Grandes empreendimentos estão sendo obrigados a bancar obras de interesse público em seus arredores para compensar o impacto de suas construções. Praças, ciclovias, reformas de acessibilidade e modernização da iluminação são algumas das medidas compensatórias que shoppings e condomínios estão sendo obrigados a bancar caso queiram usufruir do cada vez mais escasso espaço na metrópole.

Ainda há muito por fazer e são vários os obstáculos a serem enfrentados. O caminho é longo rumo à cidade que priorize o bem estar das pessoas e que se encare enquanto organismo e espaço de troca de experiências e convívio, e não simples passagem. Quem sabe um dia possamos usufuir de um lugar assim?

 

Matheus Trevisan
Enviado por

Redator

Se quiser discutir sobre política ou o alvinegro da baixada, é melhor vir com bons argumentos. Estudante de Ciências Sociais, cinéfilo e nosso mais novo redator.

Todos os posts por Matheus Trevisan
Clique aqui para solicitar um contato telefônico

Preencha os campos abaixo, e em breve entraremos em contato.

Nome * * Campo obrigatório
Telefone * * Campo obrigatório
Solicitar ligação

(11) 3675-6710
(11) 3803-5873
comercial@idst.com.br

Rua Crasso, 199
Lapa, São Paulo - SP
05043-010

Copyright 2015 © ID Studio
Todos os direitos reservados

Vamos trabalhar juntos?

solicite um orçamento!

(11) 3675-6710
(11) 3803-5873
comercial@idst.com.br

Rua Crasso, 199
Lapa, São Paulo - SP
05043-010

Copyright 2015 © ID Studio | Todos os direitos reservados
Vamos trabalhar juntos?
solicite um orçamento!

(11) 3675-6710
(11) 3803-5873
comercial@idst.com.br

Rua Crasso, 199
Lapa, São Paulo - SP
05043-010

Copyright 2015 © ID Studio | Todos os direitos reservados